quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Nova vida?


Havia cerca de dois anos que se mudaram para Northville, uma cidade de médio porte com poucas fábricas, poucos prédios, tranqüila, haja vista sua imensa área verde e um representativo cultivo de laranjas. Contudo a ‘cidade das laranjas’ exatamente como era conhecida na região, ainda não fazia o efeito esperado para Samantha Gilberth e Emile Gilberth, mãe e filha que só queriam esquecer o passado, buscando nesta nova cidade aquilo que nunca tiveram juntas, paz.
- Semana que vêm mãe?
- Sim filha. Terça-feira.
Samantha queria muito que a data do aniversário de Emile representasse um momento feliz, que só coisas boas passassem pela mente da menina nesse dia especial, pois qualquer garota de 16 anos ficaria entusiasmada ou até mesmo ansiosa pela chegada do seu dia. Samantha percebia que sua filha não sentia nem uma coisa nem outra.

Emile saia muito cedo de casa. Em torno das 6:00 h já estava defronte dos portões de sua escola. Apesar de ter um bom tempo que freqüentava esta instituição, não conseguia fazer muitos amigos, ou melhor, não tinha amigos, ela até que se esforçava, mas as outras meninas estavam convencidas que estariam mais seguras ignorando-a. Justificativas ficcionais, desencontros bruscos de olhares, tudo era feito para minimizar a presença de Emile, e por incrível q pareça ela começava a se acostumar, pois lá no fundo, sentia-se merecedora de tudo aquilo.
Voltava para a sua casa sempre com a mesma cara e com as mesmas respostas. “Como foi filha?” “Tudo bem”. Samantha fazia de tudo para tentar mudar o humor de Emile, mas sabia que apenas uma atitude há dois anos atrás poderia transformar esta triste realidade, salvando duas vidas.

*

Samantha sentia seu coração acelerar toda vez que o sol se punha. Suas mãos começavam a suar, percebia sua filha mais agitada, menos falante, mais temerosa, quando enfim a porta batia forte e adentrava na cozinha o homem da casa, Maxuel Gilberth. Era sete anos mais velho que Samantha, porém todos poderiam apostar que ela era mais velha que o seu marido. Possuía 1,90 m de altura, corpulento e mal-encarado, exalava uma arrogância que em nada lembrava aquele rapaz educado, falante, com uma simpatia aparentemente inabalável. Samantha não tirava aquela doce imagem do seu marido da cabeça, isso servia para aliviar um pouco as dores que sentia.

Era um ritual que, salvo poucas exceções, realizava-se todos os dias após o jantar, Maxuel mandava Emile subir para seu quarto, mal falava com a filha, nem olhava diretamente para ela, esforçava-se em negá-la todos os dias, demonstrava toda a raiva que sentia por ela e Emile nunca entendeu o porquê daquele sentimento, nunca soube o que era ter um Pai que a amava.
Subia as escadas com certo automatismo, contudo naquele dia foi diferente, ao subir o primeiro degrau voltou-se para a cozinha e esboçou alguma fala:
- Pai, hoje é o meu an...
Foi o bastante para Maxuel caminhar em sua direção e dar-lhe um tapa, tão forte que a fez colidir com a parede.
- Agora! Suba!
Com uma mão Maxuel a colocou de pé segurando-a pelo braço, Emile pensou que seu braço iria quebrar, até que foi solta e subiu cambaleante para seu quarto. De lá podia ouvir a intensa discussão que seguia por cerca de meia hora até ouvir o primeiro tapa. Tinha pena da mãe. Não sabia porquê ela agüentava aquele masacre. Era humilhada e ainda podia amá-lo? Pensava se no lugar da mãe ela teria a mesma postura, passível a uma situação completamente irracional. Sabia que não.
A sua incredulidade já extrapolava os limites, estava sufocada por um sentimento insólito, alimentado diariamente, sentia que devia tomar alguma atitude, libertar-se daquela alcova. E sabia como conseguir as chaves para uma nova vida.
Saiu lentamente pelo corredor, entrou no quarto dos seus pais, abriu a gaveta do criado-mudo que ficava do lado da cama o qual seu pai dormia sempre. Pegou aquilo que aliviaria todo o sofrimento. Em nenhum momento Emile sentiu um ímpeto no sentido de retroceder, correr para seu quarto e chorar como fazia todas as noites. Andou, portanto a passos firmes, desceu as escadas de forma inaudível, entrou na cozinha e viu sua mãe estendida no chão, aos pés do seu marido que berrava alguma coisa incompreensível para Emile e muito menos para sua mãe que, desfalecida, não percebeu a presença da filha portando na mão esquerda um revolver.

Emile levantou os braços, apontando a arma na direção do pai, ao passo que a ponta de seus dedos, das mãos e dos pés, formigavam. Não soube por quanto tempo ficou ali parada naquela posição, duvidava se era capaz de fazer aquilo. Desde que tomou o primeiro tapa em seu rosto Emile sentiu o amor pelo pai esvair do seu coração. Maxuel Gilberth tornou-se um estranho que tinha apenas o sobrenome igual ao seu. Se sua mãe ainda guardava a esperança de voltar a viver momentos felizes, a menina tinha se entregado a tristeza de uma família que ela nunca conheceu.
Quando Emile acordou do breve devaneio, suspirou, sentiu como se o tempo tivesse parado, e atirou.
Deparou-se com os olhos arregalados do pai, mirando-a firmemente, fez um movimento como se fosse agarra-la e caiu ao chão, com o braço direito esticado tocando com os dedos o pé da filha.
A mãe observou a cena e olhou bem para a filha, ela também a olhava meio confusa.

*

Emile desceu lentamente as escadas, andou até a cozinha, a qual era menor que a antiga, mas confortável, como toda a casa. Sentou-se a mesa de frente para a mãe que a olhava. Samantha agarrou a mão esquerda da filha e apertou forte, tentou lançar-lhe um sorriso e serviu Emile com o suco de laranja que tinha acabado de fazer.

Os dentes são a janela da alma


A estrada Sta. Germeine era mesmo longa, parecia que não ia acabar nunca para os recém-casados, John e Lisa Mclaine. A cerimônia do dia anterior foi cansativa e justamente como a estrada agora, que teimava em revelar seus destinos. Estavam ansiosos demais para chegar ao hotel San Martín, o qual ficava no alto da colina mais exuberante daquele lugar. Comprovariam uma paisagem sensacional e provariam de uma experiência difícil de esquecer.
A lua-de-mel é algo bastante interessante. Para uns nada mais é do que a chance de transar com a parceira de toda a vida. Já para outros ela encerra um período da vida e marca o inicio do amadurecimento que o casal tanto necessitará.
A perda da virgindade tornou-se completamente impensável, o que outrora era a significado maior da lua-de-mel. Contudo não se pode discordar que ainda é uma cerimônia muito especial.
- Hei querida, acho que estamos perto.
- Ainda bem. Não agüento mais. Minhas pernas estão dormentes.
- Dormentes?
Lisa entendeu o propósito por trás daquela pergunta.
- Certo, você não consegue parar de pensar nisso?
- Estamos em lua-de-mel, não?
Ela não deu importância e voltou seu olhar para a estrada que começava a se inclinar, dando inicio a difícil subida ao topo da colina.
O Asfalto acabara e percorriam agora uma estrada de cascalho.
- Meu Deus do céu, tomara que esse hotel seja bom mesmo – Disse John em tom de arrependimento, pois foi ele quem insistiu nessa viajem de ultima hora. A decisão de ir à praia já estava planejada há meses, porém aquele hotel chamou muito a atenção de John, e Lisa não poderia fazer nada contra a idéia de seu marido.
- Pois é. Já estaríamos uma hora dessas, com os pés na areia quente e um coco gelado na mão.
- Ok querida, confie em mim. Isso vai ser muito mais interessante.
- Espero.
Já anoitecera quando finalmente o hotel San Martín tornou-se visível. Uma bela construção do século XIV. Ostentava uma altura grandiosa, com duas torres e uma enorme entrada. Dava uma impressão de que aquilo poderia ser qualquer coisa menos um hotel.
- Caramba! Esse é o nosso castelo – falou John, olhando para sua esposa que se perdia no exagero daquele lugar.
Pararam o carro em frente a entrada principal. Andaram em direção a recepção que estava vazia.
- Oi? Alguém por favor?! – gritou John.
Alguns segundos depois, uma mulher de meia idade com um aspecto muito ruim, mal vestida e cansada, foi ao encontro do casal.
- Boa noite senhor.
- Boa noite. Estamos em lua-de-mel e gostaríamos de nos hospedar no melhor quarto.
- Sim, claro. Ele fica no ultimo andar. È um quarto muito bonito, garanto que vão gostar. Por favor, deixe-me levar suas coisas.
- Você não tem ninguém que possa levar? – Indagou John.
- Não. Sou sozinha aqui faz anos. Perdoem-me, esqueci de apresentar-me. Meu nome é Margareth Van Bourning. – e esforçou-se para sorrir a seus clientes.
- Prazer. Sou John e essa é minha esposa, Lisa.
- Linda sua esposa, muito linda...
- Obrigada - Lisa ficou desconcertada, mas não porque ela a elogiou e sim devido aos olhares que ela lançava em John. Parecia que aquela senhora estava dando em cima de seu marido, ou pior, estava desejando-o. Além do mais, não conseguia parar de olhar para os horríveis dentes daquela mulher. Sujos e desproporcionais, assemelhavam-se a de um animal selvagem.
- Bem. Vamos? – Resmungou Margareth, analisando John de cima a baixo. Como se estivesse estudando-o.
Subiram muitas escadas.
- Aqui está. Se precisarem de mim, é só ligar para a recepção.
- Obrigado senhora Van Bourning, muito gentil.
O casal entrou no quarto e Lisa que não disse nenhuma palavra durante o caminho até o quarto, desabafou.
- Que porcaria de lugar é esse? Você e suas idéias John! Demoramos horas na estrada para chegar nesse fim de mundo. Só pode ser piada. E você viu o jeito que ela te olhava? Você viu os dentes dela?
- Lisa...
- O que é ?
- Eu te amo.
- Vai pra o inferno.
John não dava importância mais para os ataques dela, conhecia-a muito bem. Foi até a mala, abriu e remexeu até encontrar o que procurava. Tirou os materiais e começou a fazer. Colocou com cuidado, enrolou, acendeu. Deitou ao lado de Lisa e tragou profundamente.
- Quer?
John sempre oferecia um cigarro de maconha antes de ir para cama com ela. Sempre fumavam juntos antes e depois.
- Não, não quero.
- Não? Por quê?
Ela não respondeu e cerrou os olhos.
- Ah não! Você não vai dormir agora!
- Estou muito cansada.
John deu a ultima tragada e começou a despi-la.

No dia seguinte Lisa acordou assustada. John não estava na cama. Procurou seu marido pelo quarto e correu até a porta, olhou o vasto corredor vazio. Fechou a porta, agora apavorada. John não me deixaria sozinha assim. Pegou o telefone e ligou para a recepção.
- Bom dia, em que posso ajudá-la senhora Mclaine?
- Como sabe que sou eu?
- Em que posso ajudá-la?
- Bem, a senhora sabe onde John está?
- Sim. Ele acaba de sair. Falou que andaria um pouco para conhecer o local.
- Ok. Obrigada – Bateu o telefone com força.
Ele saiu e me deixou sozinha aqui, ele é maluco?
Lisa não teria coragem de sair daquele quarto. Voltou para a cama. Estava exausta, a noite foi tão cansativa quanto a viajem. Fechou os olhos e adormeceu.
Quando mergulhava em sonhos, embalada pelo o ar quente vindo do mar, foi arranca de seu devaneio por uma forte batida na porta.
- Que diabos... Quem é?
- Desculpe o incomodo senhora, serviço de quarto.
- Serviço? Não pedi nada.
- Nem precisava, servimos regularmente em três períodos do dia.
Lisa sabia quem estava do outro lado. Abriu rispidamente a porta e deixou Margareth colocar o carrinho ao lado da cama.
- Se precisar de mim...
- Tudo bem, eu sei.
Expulsou a mulher do quarto e foi ver o que ela tinha levado, afinal não tinha comido nada na noite anterior.
Tomou um susto quando viu a quantidade de carne que tinha para o café da manhã, aquilo alimentaria meia dúzia de pessoas e sobraria para o almoço.
Estava com fome e não poderia deixar de pelo menos provar. Levou a boca um pedaço de carne do ensopado e comeu relutante. Um sabor diferente, algo bastante distinto ao paladar de qualquer pessoa. Não conseguia distinguir que tipo de carne era aquela.
Depois de provar um pouco dos quatro pratos que Margareth trouxe, não conseguia comer mais daquela iguaria. Fechou a bandeja e sentou na cama.
Lisa se sentiu só, não agüentaria ficar mais naquele quarto, não era justo ficar sozinha em plena lua-de-mel, e ainda mais em um lugar que não a agradava.
Vestiu um casaco e saiu pelo corredor. Desceu algumas escadas quando voltou o olhar parra o corrimão que segurava. Uma mancha percorria-o.
- O que é isso... – Lisa subitamente parou e olhou sua mão esquerda, a que segurava o corrimão, estava vermelha. Não tinha duvida de que aquilo era sangue. Lisa era enfermeira e convivia diariamente com pacientes que chegavam na emergência do hospital que trabalhava.
Automaticamente pensou em John. Desceu rapidamente as escadas e atingiu um corredor maior que o do seu andar. Ficou parada ali sem saber aonde ir, tinha varias entradas, varias alternativas que a confundia.
Ela não podia acreditar no que acabara de ver. O sangue agora estava pelo chão e parecia que indicava um caminho. Alguém foi arrastado pelo corredor, alguém que estava muito mal.
Começou a se desesperar e pensava em John agora muito mais forte e preocupada. Estava com muito medo do que poderia presenciar naquele hotel. Decidiu seguir a trilha de sangue. Andou pelo longo corredor e viu que o sangue parava frente a uma porta branca, a qual possuía uma placa, dizendo: “Cozinha”.
Tremula, agarrou a maçaneta e girou-a devagar. O que eu estou fazendo? Abriu a pesada porta com dificuldade e viu que o lugar estava tomado pela escuridão. Tateou a parede e sentiu o interruptor, apertou-o e as luzes se acenderam tão rapidamente que ofuscou sua visão por um instante. Quando conseguiu enxergar alguma coisa, tomou um susto. Uma mesa grande localizada bem no centro estava tomada por sangue, sem falar do chão completamente sujo.
- Que porcaria. Isso é um matadouro ou uma cozinha? Vou sai daqui já!
Lisa voltou para o quarto correndo decidida em arrumar suas coisas e esperar John na recepção, não gostaria de ficar lá nem mais um minuto.
Chegou em seu quarto e abriu rapidamente a porta. Assustou-se.
- John? Por que você não falou que ia sair hein? Fiquei aqui igual a uma tola lhe esperando. Quero sair desse lugar e é agora!
Seu marido não a respondia, estava deitado de bruços na cama.
- John! Acorde! Estou falando que não quero mais ficar aqui!
Lisa agarrou o braço dele e puxou, quando se virou ela viu o que tinha acontecido. Pulou para trás e soltou um gemido gutural. Não pôde gritar, estava impossibilitada pelo medo que a percorria. John estava aberto, oco, não tinha víceras, não tinha mais nada dentro dele. Seu tórax e abdome estavam abertos em um corte longitudinal. Seu coração, estômago, rins, seus pulmões, nada. Tudo foi arrancado e sua carcaça estava olhando agora para sua esposa, que chorava freneticamente, desesperada torcendo para que não passasse de um pesadelo que aquele lugar estava proporcionando a sua mente. Vomitou quando lembrou do café da manhã. O gosto repugnante de carne humana. Provara a carne do seu marido. Vomitou mais uma vez.
Tudo era diabolicamente real. Ela tinha que fazer alguma coisa. Temia em ser a próxima vítima daquela louca. Não entendia o porquê dela ter feito uma coisa dessas. Mas afinal, um psicopata não precisa ter muitos motivos para tirar a vida de alguém.
Lisa chorava incessantemente enquanto procurava as chaves do carro na mala. Finalmente achou e correu procurando a saída. Desceu inúmeras escadas. Encontrou o corredor que dava na recepção, ofegante, olhou em todas as direções torcendo para não encontrar aquela mulher.
Saiu pela entrada principal e avistou seu carro. Felizmente não viu Margareth.
Foi difícil colocar a chave e ligar o carro, estava tremendo muito e sua visão estava turva.
Foi se afastando do hotel. Lisa se sentia mal por deixar o corpo de seu marido lá, mas o desejo de viver era mais forte. Vomitou mais uma vez sobre o volante quando lembrou o que tinha visto e feito.
Acelerando o máximo possível, desceu a colina. Lisa só conseguia enxergar o caminho de casa, pois nem percebeu quando um carro, em direção oposta, passou por ela. Um carro com quatro jovens que subia a colina. Musica alta e as férias a serem aproveitadas.
No hotel, Margareth limpava a sujeira, na esperança de novos hospedes.

Atenção, todos sentados!


- Caramba, oito horas, atrasado novamente.
Há 11 anos, Greg Olier fazia parte do quadro de professores de um colégio estadual em sua cidade. Professor respeitado e adorado por todos, dono de uma inteligência acima da média. Greg era conhecido como o Professor-palhaço, devido ao excesso de piadas que ele contava nas salas de aula, fato que não trouxe demais transtornos em sua carreira profissional. Seu lema era: “Ensinar divertindo é muito mais fácil”. Porém naquela manhã tudo seria um pouco mais difícil para ele.
Ao chegar no colégio, dirigiu-se a sua vaga no estacionamento. Agarrou sua pasta e andou a passos largos para a sala dos professores, local que particularmente não agradava-o, pois sempre sentia um ar de arrogância, prepotência ou seja lá o que for, algo repugnante para com seu caráter. Prezava sempre pela humildade nas pessoas, sua formação contribui pra isso.
*
Oriundo de uma família pobre cresceu em meio a brigas e discussões exasperadas entre seu pai e sua mãe. O pai dizia que trabalhava, mas o que levava para casa era tão somente um corpo estragado pela bebida. Sua mãe lavava roupas de famílias da classe média, e se esforçava para sustentar a casa sozinha. Tinha muito apreço por seu único filho. Sempre que as patroas deixavam as roupas para o serviço, ela lembrava/pedia para que separassem livros da escola que não mais eram usados por seus filhos. Livros que seriam destinados ao Greg. Ele não gostava de ler, mas por respeito e admiração pelo esforço da mãe, assiduamente vasculhava os conteúdos dos livros recebidos. Desde Romances a Geografia e história, essa era a educação que Greg teve até os 10 anos, aprendeu a ler com a mãe e só pisou na escola depois de fazer um teste multidisciplinar em uma instituição de ensino primário localizada a nove quarteirões de sua casa. O diretor ficou impressionado com o desempenho do menino que nunca estudou em uma escola.
*
Andava quase correndo à sala dos professores enquanto notava algo bastante adverso, não tinha aluno algum no pátio principal, coisa que não presenciou durante seus anos na instituição. Deu de ombros e continuou, pensando se teria de encarar o diretor hoje ou quem sabe ele teria se ausentado novamente, para seu alívio como o professor mais perseguido da história.
A cada minuto que passava, Greg ficava mais confuso, pois o que ele via não fazia o mínimo sentido. O colégio exalava uma solidão tão aterradora, que o professor chegou a se perguntar se de fato estaria onde pensasse que estava. O pavilhão onde ficava a grande maioria das salas de aula estava completamente vazio. Não se conseguia notar nenhum barulho além das portas. Calmamente, Greg se abaixou e abriu sua pasta, sacou seu caderninho de anotações, o qual possuía um calendário, olhou bem a data no seu relógio e conferindo no calendário, comprovou que não era um domingo ou algum tipo de feriado.Um vento gélido que o percorreu neste instante contribuiu para que o pavor tomasse conta.
Um problema estava acontecendo naquele colégio, algo que ele não gostaria de estar participando, mas era tarde demais.
Porque aquele despertador não estava quebrado heim?!
Vencendo seu medo, progrediu pelo corredor que dava acesso as dezenas de salas, quando Greg ouviu o som de uma porta se abrindo e dela saindo uma garota. Era Sam Dunnison. Uma jovem aluna que tinha entre 15 e 16 anos. Greg reconheceu seu rosto e lembrou da menina que, religiosamente, sentava-se no fundo da sala, na ultima cadeira, do lado esquerdo. A ética não permite comentários, mas Greg tinha sua opinião formada sobre essa aluna. Mimada e muito mal-educada, filha de pais ricos, tinha tudo, menos atenção da familia.
- Oi professor.
- Oi Dunnison, você sabe me dizer onde estão todos?
- Estão no lugar deles, professor.
- No lugar deles? Que lugar?
Inesperadamente, Sam entrou por onde tinha saído, fugindo da visão de Greg.
- Dunnison!
Greg não sabia a razão daquilo, mas sabia para onde ela estava indo. O auditório principal do colégio. Onde aconteciam as palestras, aulas especiais, peças teatrais e tudo que acarretaria a presença de uma boa quantidade de pessoas.
O professor correu na direção da garota. Aproximando-se da porta que dava acesso ao local, presenciou uma cena que não imaginaria ver nem mesmo nos piores filme de terror. Uma grande carnificina aconteceu naquele lugar, e sentia que por pouco nao era mais um. Greg não sabia muito bem se podia mexer as pernas, estava tomado pelo medo, crescente e dilacerante, não sabia o que deveria, ou melhor, poderia fazer. Fugir? Ajudar? Ajudar quem? Aquele salão estava morto. Centenas de pessoas, centenas de crianças mortas. O pânico gritava através de suas faces paralisadas e enegrecidas, de seus olhos vidrados, de braços apontando para cima como se pedissem socorro. Sam Dunnison fez isso?
- Dunnison? Dunnison?
Gritava o professor desesperadamente, talvez até para si próprio, como maneira de ganhar força e se reerguer, fugir da clausura do medo.
Sam Dunnison já poderia estar longe. Os corpos permaneciam insistentemente na cabeça do professor. Ele pôde notar a causa, todos estavam eletrocutados. Mas como? Isso é absolutamente... possível! Voltou-se para as cadeiras, todas feitas de algum tipo de metal, metal que conduziu a morte a cada um daqueles alunos. Centenas de futuros eliminados, simplesmente. Após alguns instantes Greg notou que o chão estava molhado, então compreendeu o plano de Sam Dunnison. Ela fez com que disparasse o sistema anti-incêndio no teto, molhando a todos presentes e logo em seguida ligou uma rede elétrica, maquiavelicamente, entrelaçada na base das cadeiras, de todos as cadeiras do auditório
- Oh meu Deus, ela armou isso tudo, ela matou... ela matou...
Quando de repente, ouviu passos no corredor por onde tinha vindo. Era Dunnison correndo em sua direção portando uma faca na mão direita e um ódio que transcendia sua alma. Ódio que Greg Olier não desejaria experimentar. Correu para a saída principal do pavilhão, alcançou o pátio principal, quando se aproximava do estacionamento Dunnison ainda o acompanhava logo atrás, seu ímpeto de matar não cessava. Greg conseguiu pegar as chaves e abrir o carro. Ligou e partiu a toda pelo amplo estacionamento, fazendo o retorno até atingir a rua. Conseguiu. Olhou pelo retrovisor e não mais notava Dunnison.
Respirou fundo, tentou acalmar-se, agarrou seu lenço e enxugou o suor em sua testa, quando olhou teimosamente o espelho retrovisor, perdeu o fôlego, lá estava ela o encarando, sentada no seu carro como se nada estivesse acontecendo. Greg não pôde acreditar. Quando esboçava reação, ela já tinha saltado e cravado a faca em seu peito, tudo estava acabado, Greg...
Completamente apavorado e suando como nunca, Greg levantou-se de sua cama, ao som do despertador. Estava atrasado novamente. Incrédulo, o professor olhou para o relógio que marcava oito horas.