
Havia cerca de dois anos que se mudaram para Northville, uma cidade de médio porte com poucas fábricas, poucos prédios, tranqüila, haja vista sua imensa área verde e um representativo cultivo de laranjas. Contudo a ‘cidade das laranjas’ exatamente como era conhecida na região, ainda não fazia o efeito esperado para Samantha Gilberth e Emile Gilberth, mãe e filha que só queriam esquecer o passado, buscando nesta nova cidade aquilo que nunca tiveram juntas, paz.
- Semana que vêm mãe?
- Sim filha. Terça-feira.
Samantha queria muito que a data do aniversário de Emile representasse um momento feliz, que só coisas boas passassem pela mente da menina nesse dia especial, pois qualquer garota de 16 anos ficaria entusiasmada ou até mesmo ansiosa pela chegada do seu dia. Samantha percebia que sua filha não sentia nem uma coisa nem outra.
Emile saia muito cedo de casa. Em torno das 6:00 h já estava defronte dos portões de sua escola. Apesar de ter um bom tempo que freqüentava esta instituição, não conseguia fazer muitos amigos, ou melhor, não tinha amigos, ela até que se esforçava, mas as outras meninas estavam convencidas que estariam mais seguras ignorando-a. Justificativas ficcionais, desencontros bruscos de olhares, tudo era feito para minimizar a presença de Emile, e por incrível q pareça ela começava a se acostumar, pois lá no fundo, sentia-se merecedora de tudo aquilo.
Voltava para a sua casa sempre com a mesma cara e com as mesmas respostas. “Como foi filha?” “Tudo bem”. Samantha fazia de tudo para tentar mudar o humor de Emile, mas sabia que apenas uma atitude há dois anos atrás poderia transformar esta triste realidade, salvando duas vidas.
*
Samantha sentia seu coração acelerar toda vez que o sol se punha. Suas mãos começavam a suar, percebia sua filha mais agitada, menos falante, mais temerosa, quando enfim a porta batia forte e adentrava na cozinha o homem da casa, Maxuel Gilberth. Era sete anos mais velho que Samantha, porém todos poderiam apostar que ela era mais velha que o seu marido. Possuía 1,90 m de altura, corpulento e mal-encarado, exalava uma arrogância que em nada lembrava aquele rapaz educado, falante, com uma simpatia aparentemente inabalável. Samantha não tirava aquela doce imagem do seu marido da cabeça, isso servia para aliviar um pouco as dores que sentia.
Era um ritual que, salvo poucas exceções, realizava-se todos os dias após o jantar, Maxuel mandava Emile subir para seu quarto, mal falava com a filha, nem olhava diretamente para ela, esforçava-se em negá-la todos os dias, demonstrava toda a raiva que sentia por ela e Emile nunca entendeu o porquê daquele sentimento, nunca soube o que era ter um Pai que a amava.
Subia as escadas com certo automatismo, contudo naquele dia foi diferente, ao subir o primeiro degrau voltou-se para a cozinha e esboçou alguma fala:
- Pai, hoje é o meu an...
Foi o bastante para Maxuel caminhar em sua direção e dar-lhe um tapa, tão forte que a fez colidir com a parede.
- Agora! Suba!
Com uma mão Maxuel a colocou de pé segurando-a pelo braço, Emile pensou que seu braço iria quebrar, até que foi solta e subiu cambaleante para seu quarto. De lá podia ouvir a intensa discussão que seguia por cerca de meia hora até ouvir o primeiro tapa. Tinha pena da mãe. Não sabia porquê ela agüentava aquele masacre. Era humilhada e ainda podia amá-lo? Pensava se no lugar da mãe ela teria a mesma postura, passível a uma situação completamente irracional. Sabia que não.
A sua incredulidade já extrapolava os limites, estava sufocada por um sentimento insólito, alimentado diariamente, sentia que devia tomar alguma atitude, libertar-se daquela alcova. E sabia como conseguir as chaves para uma nova vida.
Saiu lentamente pelo corredor, entrou no quarto dos seus pais, abriu a gaveta do criado-mudo que ficava do lado da cama o qual seu pai dormia sempre. Pegou aquilo que aliviaria todo o sofrimento. Em nenhum momento Emile sentiu um ímpeto no sentido de retroceder, correr para seu quarto e chorar como fazia todas as noites. Andou, portanto a passos firmes, desceu as escadas de forma inaudível, entrou na cozinha e viu sua mãe estendida no chão, aos pés do seu marido que berrava alguma coisa incompreensível para Emile e muito menos para sua mãe que, desfalecida, não percebeu a presença da filha portando na mão esquerda um revolver.
Emile levantou os braços, apontando a arma na direção do pai, ao passo que a ponta de seus dedos, das mãos e dos pés, formigavam. Não soube por quanto tempo ficou ali parada naquela posição, duvidava se era capaz de fazer aquilo. Desde que tomou o primeiro tapa em seu rosto Emile sentiu o amor pelo pai esvair do seu coração. Maxuel Gilberth tornou-se um estranho que tinha apenas o sobrenome igual ao seu. Se sua mãe ainda guardava a esperança de voltar a viver momentos felizes, a menina tinha se entregado a tristeza de uma família que ela nunca conheceu.
Quando Emile acordou do breve devaneio, suspirou, sentiu como se o tempo tivesse parado, e atirou.
Deparou-se com os olhos arregalados do pai, mirando-a firmemente, fez um movimento como se fosse agarra-la e caiu ao chão, com o braço direito esticado tocando com os dedos o pé da filha.
A mãe observou a cena e olhou bem para a filha, ela também a olhava meio confusa.
*
Emile desceu lentamente as escadas, andou até a cozinha, a qual era menor que a antiga, mas confortável, como toda a casa. Sentou-se a mesa de frente para a mãe que a olhava. Samantha agarrou a mão esquerda da filha e apertou forte, tentou lançar-lhe um sorriso e serviu Emile com o suco de laranja que tinha acabado de fazer.
- Semana que vêm mãe?
- Sim filha. Terça-feira.
Samantha queria muito que a data do aniversário de Emile representasse um momento feliz, que só coisas boas passassem pela mente da menina nesse dia especial, pois qualquer garota de 16 anos ficaria entusiasmada ou até mesmo ansiosa pela chegada do seu dia. Samantha percebia que sua filha não sentia nem uma coisa nem outra.
Emile saia muito cedo de casa. Em torno das 6:00 h já estava defronte dos portões de sua escola. Apesar de ter um bom tempo que freqüentava esta instituição, não conseguia fazer muitos amigos, ou melhor, não tinha amigos, ela até que se esforçava, mas as outras meninas estavam convencidas que estariam mais seguras ignorando-a. Justificativas ficcionais, desencontros bruscos de olhares, tudo era feito para minimizar a presença de Emile, e por incrível q pareça ela começava a se acostumar, pois lá no fundo, sentia-se merecedora de tudo aquilo.
Voltava para a sua casa sempre com a mesma cara e com as mesmas respostas. “Como foi filha?” “Tudo bem”. Samantha fazia de tudo para tentar mudar o humor de Emile, mas sabia que apenas uma atitude há dois anos atrás poderia transformar esta triste realidade, salvando duas vidas.
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Samantha sentia seu coração acelerar toda vez que o sol se punha. Suas mãos começavam a suar, percebia sua filha mais agitada, menos falante, mais temerosa, quando enfim a porta batia forte e adentrava na cozinha o homem da casa, Maxuel Gilberth. Era sete anos mais velho que Samantha, porém todos poderiam apostar que ela era mais velha que o seu marido. Possuía 1,90 m de altura, corpulento e mal-encarado, exalava uma arrogância que em nada lembrava aquele rapaz educado, falante, com uma simpatia aparentemente inabalável. Samantha não tirava aquela doce imagem do seu marido da cabeça, isso servia para aliviar um pouco as dores que sentia.
Era um ritual que, salvo poucas exceções, realizava-se todos os dias após o jantar, Maxuel mandava Emile subir para seu quarto, mal falava com a filha, nem olhava diretamente para ela, esforçava-se em negá-la todos os dias, demonstrava toda a raiva que sentia por ela e Emile nunca entendeu o porquê daquele sentimento, nunca soube o que era ter um Pai que a amava.
Subia as escadas com certo automatismo, contudo naquele dia foi diferente, ao subir o primeiro degrau voltou-se para a cozinha e esboçou alguma fala:
- Pai, hoje é o meu an...
Foi o bastante para Maxuel caminhar em sua direção e dar-lhe um tapa, tão forte que a fez colidir com a parede.
- Agora! Suba!
Com uma mão Maxuel a colocou de pé segurando-a pelo braço, Emile pensou que seu braço iria quebrar, até que foi solta e subiu cambaleante para seu quarto. De lá podia ouvir a intensa discussão que seguia por cerca de meia hora até ouvir o primeiro tapa. Tinha pena da mãe. Não sabia porquê ela agüentava aquele masacre. Era humilhada e ainda podia amá-lo? Pensava se no lugar da mãe ela teria a mesma postura, passível a uma situação completamente irracional. Sabia que não.
A sua incredulidade já extrapolava os limites, estava sufocada por um sentimento insólito, alimentado diariamente, sentia que devia tomar alguma atitude, libertar-se daquela alcova. E sabia como conseguir as chaves para uma nova vida.
Saiu lentamente pelo corredor, entrou no quarto dos seus pais, abriu a gaveta do criado-mudo que ficava do lado da cama o qual seu pai dormia sempre. Pegou aquilo que aliviaria todo o sofrimento. Em nenhum momento Emile sentiu um ímpeto no sentido de retroceder, correr para seu quarto e chorar como fazia todas as noites. Andou, portanto a passos firmes, desceu as escadas de forma inaudível, entrou na cozinha e viu sua mãe estendida no chão, aos pés do seu marido que berrava alguma coisa incompreensível para Emile e muito menos para sua mãe que, desfalecida, não percebeu a presença da filha portando na mão esquerda um revolver.
Emile levantou os braços, apontando a arma na direção do pai, ao passo que a ponta de seus dedos, das mãos e dos pés, formigavam. Não soube por quanto tempo ficou ali parada naquela posição, duvidava se era capaz de fazer aquilo. Desde que tomou o primeiro tapa em seu rosto Emile sentiu o amor pelo pai esvair do seu coração. Maxuel Gilberth tornou-se um estranho que tinha apenas o sobrenome igual ao seu. Se sua mãe ainda guardava a esperança de voltar a viver momentos felizes, a menina tinha se entregado a tristeza de uma família que ela nunca conheceu.
Quando Emile acordou do breve devaneio, suspirou, sentiu como se o tempo tivesse parado, e atirou.
Deparou-se com os olhos arregalados do pai, mirando-a firmemente, fez um movimento como se fosse agarra-la e caiu ao chão, com o braço direito esticado tocando com os dedos o pé da filha.
A mãe observou a cena e olhou bem para a filha, ela também a olhava meio confusa.
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Emile desceu lentamente as escadas, andou até a cozinha, a qual era menor que a antiga, mas confortável, como toda a casa. Sentou-se a mesa de frente para a mãe que a olhava. Samantha agarrou a mão esquerda da filha e apertou forte, tentou lançar-lhe um sorriso e serviu Emile com o suco de laranja que tinha acabado de fazer.


